Teco Cardoso e seu caldeirão de influências

Atualizado: 16 de dez. de 2020

O som do Teco é daqueles que a gente reconhece prontamente, na primeira escuta. Seja em seus trabalhos na música instrumental (com Tiago Costa, Vento em Madeira, Pau Brasil, etc.), seja acompanhando cantores (Sergio Santos, Monica Salmaso, Dori Caymmi, Joyce, Renato Braz, etc), o timbre que tira de cada um de seus instrumentos anunciam seu tocador. E eis que temos a oportunidade de ouvi-lo falando um pouco sobre este tema.


Nesse rico depoimento Teco fala sobre o conceito de identidade musical e nos conta dos caminhos que percorreu na busca de seu próprio som através das suas inúmeras influências, seja de flautistas, saxofonistas, bateristas de jazz, cantores, compositores, literatura, vivências, etc.

Nos mostra como a construção dessa identidade foi cheia de escolhas, deliberadas ou não, que foram se transformando ao longo de uma vida. Como cada influência trouxe elementos diversos e que, através do seu filtro pessoal, foram condensados, diluídos, transformados, e que de alguma forma ampliaram sua maneira de se expressar através dos vários instrumentos que toca.

Fala também sobre a beleza de ser a identidade uma eterna construção, a necessidade de mantermos sempre a capacidade de sermos permeáveis e atentos ao que nos rodeia. Uma linda mensagem para começar e para seguir.


* Referências em outros instrumentos

Interessante notar a importância e o peso que Teco dá as suas influencias não flautistas. Como a busca pela identidade tem que percorrer caminhos que não sabemos onde vão dar, afinal, como colocar o som do trompete do Miles em nosso som de flauta? E do trombone do Raul de Souza? E dos bateristas de jazz? Não há uma só forma e não há uma só resposta. É um caminho no sentido da criação, se por um lado há muita liberdade de escolha, por outro, há muitas incertezas


* Os flautistas-flautistas

E agora, falando sobre flautistas que o influenciaram, menciona Altamiro Carrilho - sem dúvida um dos maiores nomes da flauta brasileira do séc. XX.

Falando sobre flauta no jazz, fala sobre Hubert Laws, o enquadrando na categoria flautista-flautista. Mas o que seria isso? Essa é uma questão que povoa a mente de flautistas, sejam eles populares ou eruditos. Por diversas questões históricas, em muitas situações a flauta é colocada como o segundo instrumento de muitos saxofonistas e assim, relegada a segundo plano, muitas vezes há um certo descuido em relação a sonoridade, linguagem, etc. Não é uma regra, claro, é uma generalização das boas. E aqui Teco fala sobre Laws, um exemplo de flautista "puro" (em suas palavras) que tem linguagem de improvisação e Joe Farrel, um exemplo de saxofonista-flautista que desenvolveu uma linguagem específica quando toca cada instrumento.


*A flauta e a música instrumental brasileira

Muito importante falar dos compositores da música instrumental brasileira que tocam flauta ou que tinham flautistas em seus grupos, como Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal. No caso do Hermeto há uma relação muito forte da sua música com a flauta arquetípica, como coloca o Teco. Isso ao longo das décadas, a partir dos músicos que tocaram com Hermeto - Cacau, Carlos Malta, Vinicius Dorin - transformou-se em uma linguagem particular e que vendo sendo desenvolvida até hoje com flautistas que se formaram na escola da música universal - Mariana Zwarg, Leticia Malvares. Carol D'Ávila, e muitos outros.

Para aprofundar neste tema da música instrumental brasileira, deixo disponível um artigo da flautista Marina Bastos.....


* O sopro e a voz humana

Muitas associações são feitas entre os instrumentos de sopro e a voz humana, então acho muito interessante essa fala do Teco contando como foram e ainda são transformadoras suas experiências com cantores.

Eu, particularmente, acho muito interessantes dois aspectos desse tipo de comparação. Um é que ambos tem uma plasticidade sonora incrível, o instrumentos de sopro e a voz (esta em um grau ainda maior) têm a capacidade de moldar seu timbre e terem múltiplas sonoridades oriundas de um mesmo instrumento. A segunda, diretamente ligada a primeira, é a relação do timbre gerado com a cultura em que o instrumentista/cantor está inserido.

Teco faz a analogia da voz do Raul de Souza e o som de seu trombone, e eu me lembro da voz de saxofone barítono de Moacir Santos.

Uma vez o grande clarinetista italiano Gabriele Mirabassi contou uma história muito bonita sobre seu início na clarineta. Disse que para ele o instrumento mais belo é a voz feminina e a clarineta é a que mais se assemelha dela em timbre, por isso a escolheu como seu instrumento.


*Pra terminar...

Essa reflexão do Teco (e também todos os que virão a seguir) faz pensar muito sobre a metodologia de ensino e aprendizagem da música popular, como é complexo ensinar um estudante/musicista a construir um caminho e não apenas guiá-lo a dar passos em uma trilha já pronta.

Isso não quer dizer que o professor neste contexto não tenha um papel fundamental. Não só a figura do professor, mas toda a questão da sistematização de uma metodologia que facilite e de certa forma dê acesso a esse universo que às vezes parece que é só para os "talentosos". O discurso do autodidatismo tem armadilhas!

Enfim, seguiremos com esta discussão nos próximos vídeos que ainda tem pano pra manga! Atentem para a diversidade das trajetórias de cada um desses flautistas incríveis que compartilharam aqui com a gente.

Até a próxima!



Músicos citados (colocar minutagem)


Eduardo Neves

Carlos Malta

Altamiro Carrilho

Baden Powell

Miles Davis

Hubert Laws

Joe Farrel

Hermeto Pascoal

Egberto Gismonti

Cacau

Mauro Senise

Dori Caymmi

Joyce Moreno

Monica Salmaso

Marlui Miranda

Renato Braz

Guinga

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